30/10/13

A amante holandesa

Nunca me tinha acontecido sonhar com uma personagem de um livro. Muitas vezes andaram a rondar o meu espírito durante dias, semanas, anos, regressando de tempos a tempos a meio de um pensamento ou no intervalo de uma frase numa conversa. Alguns escritores dizem frequentemente, entre a verdade e a simples armadilha de marketing, que se apaixonam por personagens que criam, sofrendo quando terminam o livro. Não me lembro de leitores assombrados por figuras de ficção, por pessoas inventadas, vivendo uma existência de papel, frágil e ao mesmo tempo contendo em si possibilidades de eternidade. Talvez haja leitores desse tipo, e se assim for já terão sido criados por Jorge Luis Borges, o escritor dos leitores improváveis - ainda que nunca tenham sido passados às páginas de um livro.
Pela primeira vez aconteceu. Acordei do sonho com um sorriso nos lábios, o perfeito reverso da angústia que se sente ao despertar de um pesadelo. Sei que a ficção pode deixar marcas invisíveis, duradouras, mas não pensei que pudesse mergulhar de forma tão profunda na vida, atravessando o rio que separa o sono da vigília. Não que a literatura não me tivesse já avisado disso. Não é a viagem de Virgílio à procura de Beatriz uma jornada onírica? A morte não será um sonho no qual se perde quem nos ama? Deitar a cabeça na almofada, deixar que o sono transporte o espírito para paragens desconhecidas, cair no abismo discreto do sonho. E sonhar, ou perder a vida, perdermo-nos no esquecimento.
No meio de um sonho banal, ela apareceu. Alta, loura, corpo jovem e cheio, repleto de promessa. Nunca um convidado tinha entrado de forma tão intrusiva na mais reclusa intimidade a que temos direito. Certas teorias psicanalíticas dizem que todas as figuras que dançam connosco nos sonhos são projecções do Eu, outros Eus confrontando-nos, revelando o que na realidade somos. Não sei se acredite, e se precisasse de prova irrefutável para acabar com esta suspeita, poderia dizer que a encontrei, ao encontrar uma personagem de Rentes de Carvalho a meio de mim próprio. A amante holandesa, saída do livro homónimo, ela própria, na dupla encarnação imaginada pelo autor, amante inventada por Gato e amante real - mesmo que de aparência sonhada - do narrador. No meu sonho, ela era as duas, perdida entre a juventude eterna a que apenas a ficção pode dar vida, e aquela meia-idade a caminho da velhice em que as duas Clarisses existem. Quando acordei, os pormenores tinham-se desvanecido. Sentia ainda no corpo os vestígios de um desejo estranho, nascido de uma imaginação que se alimenta de outra. Mas ela tinha sido real, existira. De uma existência de papel para uma existência mais ténue ainda, a amante holandesa viveu em dois mundos. E quem poderá afirmar, para além de qualquer dúvida, que cada um destes dois mundos não é mais verdadeiro e concreto do que o mundo real para onde todos os dias acordamos? Vivemos do espírito, não do corpo que o carrega.

28/10/13

Lou Reed (1942-2013)

Como aconteceu com quase todas as bandas que lançaram álbuns marcantes antes dos anos 90, cheguei aos Velvet Underground através de referências de músicos que admiravam essas bandas e que faziam parte do meu esquema das coisas. Quem me ensinou a gostar dos Velvet Underground foram os Nirvana. Passava na XFM uma cover de "Here She Comes Now", do álbum "White Light/White Heat", incluída num álbum de homenagem aos Velvet, "Heaven and Hell", o 1.º volume de uma série lançada em 1991. Acabei por comprar este álbum (mas agora não sei por onde anda) e ouvi incessantemente as músicas tocadas por bandas como os Ride, Chapterhouse ou Screaming Trees. Pouco tempo depois, comprei "Velvet Underground & Nico" e "Transformer", incluídos num top de melhores álbuns de sempre da XFM. A cover dos Nirvana, sendo mais pesada do que o original, mostrava o que os Velvet têm de melhor: as melodias urbanas cobertas por camadas de ruído, de feedback, até à saturação. As letras de Lou Reed completavam o efeito, criando uma atmosfera que, na minha imaginação, representa a Nova Iorque de Andy Warhol, entre o excesso e a depressão, um negrume distante do flower power e do psicadelismo, da pop colorida que parte do mundo ouvia na altura. Os álbuns europeus de Lou Reed foram, de certo modo, a mesma descoberta das cidades e de um submundo frequentado por prostitutas, chulos e traficantes - o brilhantismo das letras de Reed passa por uma atenção ao pormenor que transforma cada canção numa pequena história de fracasso, perda ou melancólica euforia -, uma descoberta partilhada durante algum tempo com David Bowie, também ele perdido (ou reencontrando-se) na Europa de onde tinha saído a determinada altura da sua carreira. Nunca tendo visitado Nova Iorque, sei bem que não a encontrarei como era nos anos 60, quando Lou Reed e John Cale, Bob Dylan e Andy Warhol, por lá inventavam o futuro da música. E se Dylan sempre se equilibrou entre o pretensiosismo dos artistas nova-iorquinos e um certo pendor evangélico de raiz rural, Lou Reed nunca saiu de Nova Iorque, mesmo quando andou pela Europa. Entre o minimalismo das guitarras noise - sim, milhares de bandas construíram carreiras à sombra dos caminhos desbravados pelos Velvet - e a poesia das ruas, Lou Reed foi provando que, com recursos mínimos (vocais, técnicos), se podem escrever grandes canções. É esse, no fundo, o espírito da música pop. Mesmo quando o abismo espreita em cada verso.

26/10/13

Joaquim Palhares

Partindo do princípio - de tudo, o princípio de tudo - que todos nós, sejamos conhecidos por milhões, ou pobres anónimos vivendo e morrendo na sarjeta, não passamos do resto que ninguém irá recordar, a seu tempo, não deixa de ser abracadabrante depararmo-nos com os tristes desconhecidos que um dia atravessaram o caminho de pessoas maiores do que eles, nomes que ainda agora conhecemos, admiramos, endeusamos. 
Ocorre-me isto de cada vez que penso nos milhares de críticos que ignoraram os livros de Kafka ou os filmes de Ozu - apesar de aquele e este no seu tempo terem sido reconhecidos por alguns. Do mesmo modo neste preciso momento passam por nós livros e filmes que ninguém nota, discretas obras que daqui a umas dezenas, centenas de anos, serão elevadas a olimpos a que agora não podem aceder. E mesmo duvidando de que esta verdade possa acontecer - não haverá agora um acesso quase universal a tudo quanto é publicado? -, acabarão por passar por nós, pelo tempo da nossa vida, alguns génios que apenas serão reconhecidos como tal quando já ninguém se lembrar deles. E de nós. 
Os desconhecidos que passaram pelo que era maior do que eles e ignoraram, esqueceram ou não viram. E os outros, os funcionários cansados que, mesmo reconhecendo qualquer coisa que os transcende, se limitaram a colocar o carimbo normativo, selo de uma educação formatada, de uma ordem superior, de uma mediocridade burocraticamente ordenada, política. 
É esse o caso de Joaquim Palhares, censor entre tantos outros, que leu um livro de Herberto Helder e, nele não encontrando ameaça de ordem política (apesar da "índole esquerdista"), reservou à obra a via da proibição, o silêncio da censura, por conter "passagens de grande obscenidade", apesar de não merecer qualquer reparo como "obra literária". Fascinante. Nem no recolhimento do papel menor que lhe foi confiado Joaquim Palhares deixou de dedicar à obra censurada o seu juízo crítico. É certo que a este juízo se sobrepôs um juízo ético acomodado ao regime da época, mas não deixa de ser digno de nota que no auto lavrado Joaquim Palhares não se tenha abstido de tecer considerações sobre a qualidade literária do objecto avaliado. 
Por onde andará agora este cansado funcionário? Poderá ter morrido, deixado descendência. Ter sido esquecido por todos os que o conheceram, e o seu nome, para além da efémera fama de aparecer num auto de censura a Herberto Helder, apenas existir gravado no mármore ou num registo perdido de nascimentos, casamentos, morte. Porém, existiu, existiu apenas, e existiu mais do que todos os funcionários e poetas e artistas que nem à fama de partilharem o mesmo espaço da História com Herberto Helder puderam aspirar. Andaram por cá, desapareceram. Um nome num papel é mais do que isto. Até que o fogo o queime, e o último homem esqueça.

24/10/13

Velhos

O velho diz: “mais um que morre”.
E sem mágoa ou medo o repete,
sabendo que na regular providência
da vida se equilibra o valor
a que cada um tem direito.

Outro velho ao lado diz:
“ não sairemos daqui”.

À terra se submete
a esplêndida alegria
que levou os dois pela vida fora
e os trouxe ali, ao fim de tarde,
sentados no muro dos esquecidos,
quando apenas podem remeter
para uma incerta memória
a seiva e a carne, aquilo que são,
a bifurcação
ou o atalho oculto na sombra da figueira
a pedra solta onde tropeçaram,
a curva que os levou ao caminho errado
ou a voz que os capturou e os trouxe
perdidos durante demasiado tempo,
a caligrafia precisa do sol
sobre o mar
e aquela nuvem atravessando o horizonte,
trazendo a chuva.

Na ruína, já vêem perto o barco que os leva.
E nunca a tarde foi tão demorada, tão silenciosa.
Ainda esperam.

23/10/13

Histórias

As raparigas de Ana Teresa Pereira são depois mulheres, no fim da história, ou no fim dos capítulos de que se compõe o conjunto de todas as histórias até agora escritas por ela. Têm vários nomes, mas são a mesma. E esta mulher - que não é um arquétipo, mas sim uma ideia - tem o rosto de Ana Teresa Pereira, um rosto de rapariga, magro e elegante, lábios pintados de vermelho vivo, cabelos pretos ondulados. A escritora escreve as personagens encarnando nelas, ou vive através das mulheres que inventa. Não importa se há um Tom para Ana, ou se ela descobriu aos vinte e cinco anos que era uma feiticeira, ou se o seu exílio numa ilha é consequência de um amor morto à partida ou da maldição de um homem alto e de olhos de um negro profundo. Conheço a Ana Teresa Pereira desde o tempo em que a fotografia que a identifica estava próxima do tempo em que foi tirada, há cerca de vinte anos. Vinte anos que se passaram como se fosse o parágrafo de um romance, uma elipse resolvida na passagem de uma frase para outra, um ponto final pelo meio. Suspensa naquela fotografia, a memória do que me atraiu nos contos de crime e de fadas, nas histórias de amor e perdição construídas sobre acasos e determinismos, entre o que estava escrito acontecer e o que na verdade aconteceu; acasos que se revelam já escritos ou sonhados, a sorte mostrando que nunca dorme, e decide o que veio e o que virá. As raparigas de Ana Teresa Pereira vivem agora nas histórias que estão por contar, em casas à beira-mar ou entranhadas em bosques sombrios, e serão mulheres quando acabarem de se perder nos caminhos para além dos jardins, e habitarão para sempre no limite da possibilidade e da promessa. Muitas páginas perdidas, um quadro de Burne-Jones e um bule de chá quente. Lá fora, a chuva.

09/10/13

O tempo

Na luz do dia,
bate a vida.
O calor entra pela janela,
trazendo vozes,
o canto dos pássaros e a primavera,
restos de conversas às quais
não se destrinça o fio,
o sentido,
o rumor da auto-estrada
sobrepondo-se ao perpétuo
bulício da fábrica na distância,
o som das turbinas
ruído de fundo do universo.

Tento perceber
as palavras trocadas;
crianças riem por cima dos adultos,
o estalo de uma bola de futebol contra um muro
é a tónica da frase,
um riso breve corta a atenção,
levando outros atrás,
aves seguindo o bando.

É o tempo do regresso,
de uma nova imagem a que seguimos,
é o tempo de esquecer o inverno que passou.
Acredito no caminho que me
segue, e repito-o como um mantra
antigo onde me abrigo,
uma palavra nova ensinada a um viajante
vindo do outro lado do deserto:
não a aprendo agora, mas guardo-a na memória,
e quando menos esperar vou saber como a dizer.

O Sol é um ritmo claro,
a ele entrego a vida que me chega.